sábado, 18 de julho de 2015

GURPS ÆRTH - Capitulo 7

Hochsend von Schultz gritou de dor por apenas um segundo. Sodoma, observando atentamente ao combate, apontou a cabeça encolhida de seu cajado para o guerreiro, e emendou o osso quebrado por mágica. O braço ferido assumiu uma coloração cadavérica, mas a dor desapareceu instantaneamente. Apesar disso, foi um giro da espada de Hagen, cortando diretamente o flanco da criatura, que impediu que o inimigo esmagasse crânio Hochsend enquanto esse gritava.

Num misto de coincidências e habilidade, um a um os inimigos foram vencidos. Sodoma lançou um feitiço de controle em uma das criaturas e a fez lutar contra os seus. Damon Cook tentou quebrar as pilastras de rocha e as de fogo, imaginando ter alguma conexão com as criaturas. Não teve sucesso nas tarefas, e nem tempo. Siltari Tauri, do alto, atualizava os companheiros sobre o que via, e como estavam dispostos os inimigos que vinham em ondas. Hagen triturava os oponentes de um lado, bradando o nome de Tyr, enquanto Mitrin Drachenlager acompanhava do outro lado, ambos criando uma música funesta do som de aço em pedra. Alexandros Mograine fez novamente de suas cimitarras gélidas e destruiu um dos inimigos com golpes rápidos e precisos - o frio de suas armas e a água de Yasmin eram MUITO eficientes contra esses inimigos. Depois de um breve combate, sobrou apenas um demônio: aquele sobre o controle mental de Sodoma.

O necromante aproximou-se da criatura e travou novamente um diálogo, naquela mesma língua estranha, ininteligível, cheia de sons fricativos. Quando se deu por satisfeito, repetiu o processo da torre - fez sinal para que Alexandros matasse a criatura que fora ordenada para permanecer parada e indefesa. O golpe com as lâminas geladas quase cortou o Dêmonio Antigo ao meio. Instantaneamente, os pilares de fogo se apagaram.

O necromante contou que a criatura dizia servir a um mestre, Primak, o demônio descrito no livro de Rosembaum, e ao ser perguntada sobre o que seu mestre queria, o ser respondera "tudo". Não desejando ficar na sala nem mais um momento do que o necessário, saíram pela arcada oposta seguindo pelo túnel sem fim. Após andarem por alguns minutos sem eventos, decidiram descansar. Pararam num trecho reto onde conseguiam ver tanto a frente quanto a retaguarda por dezenas de metros, a língua de fogo à direita iluminando o caminho. Ironicamente, fizeram uma pequena fogueira com tochas para cozinhar. Comeram e recuperaram-se. Alguns cochilaram e Alexandros até conseguiu silêncio o suficiente para meditar por alguns minutos.

Todos com mais calma, conversaram sobre o grupo - mais precisamente, sobre as rusgas do grupo. Hagen pediu desculpas à Damon Cook pelo ataque impulsivo, mas pediu que cessassem as ofensas à Tyr. Damon, ora mudo, ora debochado, disse de maneira estranha que o grupo todo era caótico. "Só Herbert me entende. Não é mesmo, Herbert? É sim. Eu disse pra eles". Combinaram de se escutar mais, porquê as únicas certezas que tinham era que teriam mais problemas até resolverem toda situação, e só podiam contar com eles mesmos. Ânimos, mentes, ferimentos e barrigas acalmadas, continuaram pelo túnel subterrâneo.

Perdendo a conta de quantas horas já se passaram, eles prosseguiam. Andaram até que o túnel começou a descer em uma espiral à esquerda. Algumas voltas e este terminou em uma nova arcada. Novamente, preparados para o combate, espiaram o máximo que conseguiram antes mesmo de pisar na sala. Esse local, no entanto, estava vazio. 

Se assemelhava com o fundo de um poço muito alto, com mais de vinte metros de altura. Um cilindro de rocha, desta vez não com aparência natural, mas feito de pedras ocres cortadas e encaixadas. O rastilho de fogo entrava na sala pela parede da direita, mas ia subindo em espiral pelo tubo. Sem janelas, havia apenas uma outra arcada fazendo às vezes de porta - lá no topo, a duas dezenas de metros do chão. O rastilho seguia por esse caminho. Nas paredes, abundavam reentrâncias e apoios para escalada. Nas concavidades da parede, símbolos espalhados. Sodoma e Damon identificaram os símbolos como um dos que representavam o elemento ar. Siltari disse que eles aparentavam o símbolo ælfico da morte.
Acharam que escalar não seria uma boa ideia. Sodoma disse que, entre as coisas que conversara com o demônio, podiam esperar desafios ligados aos elementos, o que estava bem claro agora. Água, Fogo, e agora Ar. Felizmente, os Myrmidons estão entre os solucionadores de problemas mais capazes de Ærwa: resolveram simplesmente VOAR até o topo. Damon Cook encantou Mitrin para que esse fosse capaz de volitar. Por ser forte, ele levaria Hagen e Yasmin nos braços, enquanto Siltari, Damon e Sodoma seguiriam voando.

Um a um, revoaram como pássaros... mas no exato momento em que Sodoma, que ia por último, deixou de tocar o solo, os símbolos gravados nas paredes começaram a sangrar um vendaval intenso! Claramente uma força antinatural, em um momento formou um ciclone dentro do cilindro de pedra. Literalmente, como folhas ao vento, os Myrmidons foram jogados violentamente contra as paredes e uns aos outros!

Sodoma, com um foco sobre-humano, conseguiu conjurar um feitiço de teletransporte ao meio da confusão. Em um salto no espaço, estava na arcada, no topo do poço. Vento o empurrava para baixo. No segundo salto ele aparecia num trecho do túnel, em relativa segurança, após a linha imaginária de onde o vendaval começava. O vácuo deixado pelo seu corpo era preenchido por um estouro de fumaça cinzenta com cheiro de terra do túmulo, instantaneamente dissipado pelo tornado. Infelizmente era o único que havia passado e restava assistir seus companheiros se virarem como podiam.

Mitrin, movido mais pela força de vontade do que pela força física, conseguiu vencer o tornado e chegar a arcada do topo. Deixou Hagen e Yasmin agarrados à parede lutando contra o vento e voltou para ajudar os outros. Damon Cook girava descontroladamente, sem conseguir voar numa só direção. "Heeeeeeeeeeeeeeeeerrrbbbeeeeeeeeeeeert!", gritava. Siltari, batendo nas paredes, também girando, tentou agarrar o cozinheiro para tentar alguma estabilidade para ambos. Acabou segurando à jaqueta de Damon - e num só movimento conseguiu despir o homem e ficar sem ver; o vento grudou a peça de roupa em seu rosto como uma segunda pele. Ambos giravam sem controle, chocando-se contra as paredes, solo e um com o outro.

Foram longos momentos até conseguirem recuperar o controle. Damon Cook conseguiu pousar no centro do poço, esforçando-se para gritar algo para os amigos. Com o vento fortíssimo, ouviram algo como "tentar" e "escalar". Hagen usava seus poderosos músculos para não só se firmar na parede acima, como segurava Yasmin, que perdeu a pegada algumas vezes e certamente cairia. O vento surgia do nada no túnel acima, soprando impossivelmente na direção do ciclone. Sodoma tentava alcançar uma das mãos de Hagen com seu cajado, mas era impraticável. Mitrin, descobrindo-se um melhor aeronauta do que jamais imaginou, conseguiu, com dificuldade, chegar a ælfa e ajuda-la a subir. Também agarrada a parede de pedra, conseguiu, finalmente, alguma estabilidade. Hagen mandou as ælfas darem as mãos, e começou a puxar ambas para trás. Enquanto isso, Mitrin voltou para buscar o cozinheiro, e ambos subiram voando abraçados em meio ao redemoinho. Um a um, e com a ajuda de todos, foram passando da linha imaginária no túnel acima, onde o vento antinatural começava a soprar. Assim que o último passou, ele cessou, e o turbilhão morreu.

Embora estivessem com escoriações de choques com as pedras, num estado lastimável, e a jaqueta de Damon estivesse lá embaixo em algum lugar, eles estavam de volta no túnel. De alguma forma, o rastilho de fogo seguia a parede da direita, nunca tendo se apagado nesse tempo todo.

Eles haviam passado mais um desafio.

GURPS ÆRTH - Capitulo 6

Por um breve momento, o espaço se torce ao redor de Damon Cook. Como se regurgitado por uma fera gigante, apareceu aos portões de Skyfall com um alto estrondo púrpura. Era estranho, pois ele havia tentado se transportar magicamente para a sala do trono. Convencido que o castelo tinha defesas mágicas contra seu feitiço, andou até o portão principal e exigiu falar com Lorde Carmell. Rapidamente, foi levado até a sala de conferências, onde lhe foi servido vinho e comida, enquanto acordavam o senhor no meio da noite.

Após uma breve espera, Lorde Herry Carmell entrou na sala, alerta, mas com a aparência de quem acabara de acordar. Era acompanhado de três guardas e Sir Derron Coriander, seu conselheiro, senescal e "sábio pessoal". Após mandar os guardas protegerem as entradas e os deixarem à sós os lordes sentaram-se ao lado do cozinheiro e perguntaram o que havia acontecido. Damon Cook não estava mudo nesta noite, então falou abertamente sobre tudo o que tinha presenciado em Tsorvo. Não deixou nada de fora. Os nobres ficaram a maior parte do tempo em silêncio e ouvindo - interrompendo raramente, e apenas para esclarecer algum ponto da narrativa.

Quando o cozinheiro terminou seu relato, Lorde Carmell já estava completamente desperto. Ordenou que ele retornasse à Tsorvo como veio e que os Myrmidons deveriam seguir pelo túnel aberto no espelho e descobrir o que havia do outro lado. Deveriam matar todos os demônios que encontrassem. Levantando, mandou chamar o capitão da guarda, Sargos Grimmwulf, e pediu que ele preparasse todos os homens para proteger Skyfall, enquanto enviaria uma brigada à Tsorvo para prestar socorro aos sobreviventes. E tentaria entrar em contato com esse Lorde Qyle de Brynndol, desconhecido por eles.

Sir Derron, quando inquirido por Cook, conseguiu explicar os objetos trazidos. Após examinar os itens minuciosamente e com um feitiço de escrutínio que fez sua fronte verter um fluído brilhante da cor do céu de verão, disse que eram feitos com o auxílio de poções alquímicas. Contou que o frasco de vidro era uma poção luminescente: bastava abrir a tampa e jogar a pílula no seu interior para que fosse criada uma reação que geraria uma luz fria. O ovo de jaspe era um objeto de cura. Se pressionado, seria esmagado com facilidade. De dentro do ovo emanaria um miasma que curaria ferimentos e mazelas de quem o esmagou em sua palma. O cozinheiro agradeceu, silenciosamente invejando o conhecimento compartilhado, pegou os itens e partiu.

Tentou dobrar o espaço diretamente da sala onde estava, mas suas suspeitas viraram certeza: Sir Derron disse que o castelo de Skyfall era protegido contra esse tipo de invasão mágica. Deveria tentar do lado de fora. Sentindo-se ignorante pela primeira vez em anos, Damon Cook decidiu que não gostava do velho feiticeiro.

Saiu em direção ao portão principal e viu metade do castelo acordada. Soldados preparavam-se para partir. Ainda que tudo desse errado, a centena de homens armados que chegariam a Tsorvo em meio dia poderia resgatar seus corpos. Concentrando-se por um momento, novamente sumiu em meio a fumaça púrpura. Voltou o topo da torre de Lorde Octavius de Tsorvo.

No pouco mais de uma hora que se passou, Hagen, impaciente, não queria esperar. Descortinou o espelho e entrou no corredor. Mitrin resolveu o acompanhar, por segurança. Era um túnel de rocha marrom clara, quase perfeitamente esférico, excluindo-se o chão, reto. O anão notou que o caminho era de aparência natural e não esculpido por homens. Andaram alguns passos, e iluminados pelo fraco luar, viram uma placa na parede de pedra. Era feita de bronze, alguns tons mais escuros que a parede, e tinha uma inscrição em velho Imperial, língua desconhecida para ambos. Abaixo da placa, uma estátua de uma harpia, uma criatura meio mulher, meio águia. Era encrustada na rocha sólida pelas patas e garras e protegia a sua frente com as grandes asas, parcialmente escondida. Ao lado da estátua, uma simples alavanca apontava o teto.

Imagem conceitual, não uma reprodução exata da estátua. 

Hagen queria prosseguir, mesmo sem saber o que aquilo significava. Chamou por Sodoma e pediu uma tradução. Acreditando que isso iria apressar ainda mais o seguidor de Tyr, o necromante simplesmente permaneceu onde estava. Forçosamente, os homens de armas aguardaram.

E então a nuvem de fumaça trouxe o cozinheiro de volta. Ele informou o que se passara em Skyfall e para que serviam os itens. E repassou as ordens de seu lorde; tinham de passar pelo portal. Matar todos os demônios. Hagen agradeceu, sedento por ação.

Antes de ir, porém, tomaram algumas precauções. Alexandros Mograine desenhou com suas lâminas alguns riscos no chão de pedra, um grande círculo delimitando o espelho. Conforme ia marcando as pedras, rezava e tocava seu corpo e a marca com as mãos. O brilho azul em seus olhos oscilava, parecendo acompanhar sua reza, ora como lanternas, ora como estrelas. Em pouco tempo, havia desenhado um círculo cheio de símbolos. Disse ter projetado um feitiço de proteção e que nenhuma criatura mágica poderia cruzar os limites da roda. Assegurou que nenhum demônio sairia, não importando o que acontecesse. Hochsend aproveitou a oportunidade e postou os Guardiões da torre, mesmo trôpegos, ao redor desse anel.

Julgavam ser a melhor proteção que podiam fazer. E um a um, entraram no túnel. Quando Hochsend pisou no chão de terra, a caverna soltou um longo GRITO, vindo de todos os lugares, como centenas de mulheres e crianças em sofrimento. Era ALTÍSSIMO, e os Myrmidons tomaram um grande susto e se abalaram, cobrindo os ouvidos. De alguma forma, esse lugar reagiu na entrada do cavaleiro. Ainda assim, só havia um caminho. Quando os gritos cessaram, tão rápido quanto vieram, prosseguiram sem trocar palavras.

Ao chegar na placa com a frase em Imperial, Cook e Sodoma a leram. Estava escrito "eínai tyflos viderent et viderentur in tenebris". Disseram significar "andem sem ver ou vejam e sejam vistos". Hagen puxou a alavanca enquanto os outros pareciam pensativos, decidindo o que fazer. Com vários estalos, algum peso foi liberado por trás da pedra. Com movimentos entrecortados, a estatua da harpia, um autômato movido por cabos, abriu suas asas e as mãos estendidas portando algo que parecia um quartzo do tamanho de um olho, como uma oferenda. Ao término do que pareceu ser um giro de uma roda invisível, a tensão dos cabos se foi, e a estátua juntou as mãos e asas violentamente, voltando à posição inicial. Ao fazer isso, as pedras em suas mãos se chocaram e uma chuva de faíscas foi lançada nas proximidades, como de uma pederneira. Um fogo se acendeu numa reentrância até então invisível na parede, abaixo da alavanca, e um risco de chamas foi seguindo pela parede direita do túnel, até onde a vista alcançava. Era como se um rastilho feito com óleo de lamparina fosse aceso, uma longa língua de fogo lambendo a rocha... iluminando o caminho.

Entre indiferentes com a luz e contrariados com Hagen pela impulsividade, seguiram em frente. Veriam o caminho, afinal. Sodoma, ainda em silêncio, apontou o que achava da ação fazendo verter uma forte luz leitosa dos olhos da cabeça encolhida que ficava empoleirada em seu cajado mágico.

Seguindo pelo túnel, era fácil notar que algo não estava certo. Não era um túnel feito por seres pensantes, assegurou o anão, mas sim uma ocorrência que parecia natural. E no entanto, era uma caverna diferentes de todas, as rochas desérticas, sem umidade, sem fungos, quase nenhuma vegetação. Sem insetos. Sem o ar parado. Largo, até três Myrmidons conseguiam andar lado a lado, e com espaço para combater - pois era o que todos esperavam. E parecia infinito.




Andaram pelo que pareceu ser uma boa hora. Sem alterações, tudo era igual. O rastilho de fogo na parede iluminava o caminho como uma dezena de tochas. Num dado momento, o túnel começou uma descida. No final da descida, um passagem em arco. Com cautela, examinaram o que vinha além: uma caverna, aparentemente natural como o túnel, mas também perfeitamente esférica, sem estalactites ou estalagmites e que terminava em um pequeno lago subterrâneo.

Yasmin, sendo uma ælfa da água, prontamente se voluntariou para examinar o lago. Sendo anfíbia, praticamente agradeceu a chance de um belo banho gelado. Mergulhou e saiu da vista dos Myrmidons, que permaneciam na beirada no lago, olhando o rastilho de fogo prosseguir, debaixo d´água, ao desconhecido.

Um breve momento de tensão, e Yasmin retornou. Parecia mais bela saindo d´água. Disse que era um lago "em formato de gota", profundo largo na parte de baixo, e muito mais estreito em cima. O rastilho de fogo continuava a queimar, de alguma forma, como uma poção borbulhante. Mesmo com essa luz, ela não conseguia enxergar o fundo do lago, e resolveu não se afastar tanto. Não havia um bolsão de ar, mas após pouco mais de uma dezena de metros, uma saída. O túnel continuava. O lago seria então mais um obstáculo simples.

Para uma ælfa da água, claro. Que respirava ar. Ao relatar o que encontrou, metade do grupo se entreolhou. Muitos não sabiam nadar. Hagen, Hochsend, Mitrin...

Depois de um tanto de deliberação, decidiram que as ælfas, Yasmin e Siltari, iriam nadar para o outro lado com duas cordas unidas em uma. Tentariam amarrar em algum lugar e dariam um aviso. Tudo certo, os outros passariam segurando a corda, submersos completamente, tentando apenas segurar o fôlego por pouco mais de uma dezena de metros. Parecia simples.

Parecia.

Alheio ao planejamento, Damon Cook disse que não precisavam se preocupar com ele. Um breve  momento de concentração, e ele pareceu vibrar, de alguma forma. Deu dois passos e *atravessou* a parede do lado, andando pela rocha como se fosse ar. Yasmin e Siltari cruzaram o lago novamente, procurando um local para ancorar a corda. Viram Cook sair da parede do lado delas, seco. Ficou ali olhando e esperando. Pouco a frente, o túnel parecia chegar ao final.

Não havia onde amarrar a corda. Não havia pedra ou ponto de apoio ou reentrâncias - outra estranheza do túnel, liso. A solução foi carregar Hagen para o outro lado, o segundo mais forte dos Myrmidons. Ambas não tiveram trabalho para submergir o cavaleiro, já que ele não tirou a armadura, armas e equipamento, mas fazê-lo não se debater e engasgar foi impossível. Hagen passou, embora quase se afogasse. De lá, depois de assoar a água, segurou a ponta da corda. Do outro lado, Mitrin, o gigantesco anão, esse sim o mais forte, segurava a corda como a um barbante.

Um a um, começaram a passar. Com maior ou menor facilidade, a maioria se afogou e respirou água, embora a corda e as ælfas impedissem o pior. Sodoma, um dos que menos precisou de ajuda, notou um movimento indefinido no fundo do lago, olhando com a ajuda da luz de seu cajado. Saindo, molhado, pediu para que se apressassem, pois previa problemas.

Provou estar certo. Uma estranha criatura apareceu, massiva. Cobria quase todo o espaço de cima do formato de gota - certamente antinatural, aparentava-se com duas águas-vivas gigantes, coladas pelas traseiras. Era levemente fluorescente, e tinha dezenas de tentáculos que saiam pelas laterais e alcançavam ambos os lados dos túneis. E atacou os Myrmidons por ambas as frentes!

Novamente, imagem conceitual.
A situação era caótica. Hagen segurava a corda de um lado, impedido de combater. Hochsend o ajudou, protegendo-o com o escudo, mas os tentáculos eram muitos, e o cavaleiro não podia recuar. Hagen ora tentava largar a corda e golpear, ora a mantinha segura - mas escorregava e entrava no lago até as coxas, indo e voltando.

Sodoma disparou um feixe de luz solar da ponta de seu cajado e queimou a criatura mesmo dentro do lago. Damon Cook desapareceu. Ninguém sabia onde ele estava. Do outro lado, Mitrin segurava a ponta da corda, enquanto tentava afastar os tentáculos com seu grande machado. Luparus recuou esgrimindo: não sabendo como ajudar ou atravessar com Garã, seu macaco, escolheu sabiamente não atrapalhar. Alexandros cortava os tentáculos que saiam da água, mas eram muitos, e isso não reduziu o ímpeto do monstro. Yasmin ficou dentro do lago, tentando pelo menos afugentar a imensa criatura furando-a com seu tridente pelos flancos.

Em parte combate, em parte cabo de guerra, a tática da criatura era clara: agarrar os Myrmidons com seus longos tentáculos e arrastá-los para a água. Uma vez submersos, a morte era certa, entre serem afogados e comidos vivos. Sons diversos ecoavam pelos túneis - água chapinhando alto, gemidos de força ao puxar a corda, brados de batalha, o som de metal contra a carne gelatinosa, e gritos de desespero ao serem agarrados e puxados. Ninguém ainda tinha sido totalmente puxado, graças à ajuda uns dos outros. Em um determinado momento, Hagen foi agarrado pela cintura e esmagado. Teria sido puxado, não fosse um feitiço vindo do nada, um raio verde atordoante, que, com um barulho metálico, fez a criatura o largar.

Sodoma concentrou-se com mais vontade, e sua determinação fez verter de seu cajado um feixe de luz solar mais poderoso, esse sim queimando gravemente a criatura. Ao mesmo tempo, Alexandros conjurou um feitiço de desidratação, um dos focos de sua magia do frio, enfraquecendo ainda mais o monstro. Foi então que, cansado do impasse e para aproveitar essa chance, Mitrin adotou uma tática suicida: enrolou a corda ao braço com firmeza, e entrou gritando na água, desferindo os golpes mais fortes que conseguia direto no corpo da criatura. Seu heroísmo, até então conhecido apenas por fama, pôde ser testemunhado pelo grande estrago que fez - grandes pedaços de carne gelatinosa separaram-se em meio a um líquido viscoso e a água gélida, e a criatura soltou a todos. Com golpes capazes de colocar abaixo o mais forte dos portões de castelo, Mitrin Drachenlager, o Dragão sob a Montanha, golpeou freneticamente o ser estranho, até que esse estremecesse e afundasse lentamente.

Ao assistir a criatura fugindo ferida ou inconsciente, aproveitaram para passar. Ambas ælfas ajudaram o resto dos Myrmidons a nadar. Nesse ínterim, uma briga. Damon apareceu, revelando ser o fim do túnel uma de suas ilusões para que possíveis inimigos não viessem pela retaguarda, uma parede falsa. Irônico, criticou a postura vacilante de Hagen: "ao que parece, Tyr não tem poderes debaixo da água".

Conhecido por seu temperamento esquentado, o servo do Deus da Justiça começou a discutir, mesmo enquanto os outros ainda passavam com dificuldade para o outro lado. Largou sua ponta da corda, e forçosamente Hochsend a agarrou. Mais ofensas voaram, e foram às vias de fato - ao ouvir um novo deboche à seu deus, Hagen desferiu dois socos no cozinheiro. Este, por sua vez, pareceu tremular como uma miragem, e teleportou-se na distância de um passo, evadindo-se de um dos socos. O outro golpe, ele desviou com seu bastão. Ao ver a fúria nos olhos do cavaleiro, recuou, e mandando um beijo jocoso, fundiu-se novamente com a parede, fora do alcance. Enquanto isso Hochsend tentava acalmar os ânimos e pedir ajuda, ainda segurando sua ponta da corda e auxiliando os outros. Sem sucesso.

Em pouco tempo, todos estão do outro lado. Cansados, molhados e com frio. Garã deu menos trabalho que o imaginado, mas acabou afogando-se um pouco, como todos. Era um clima tenso, onde ouviam-se apenas tosses e reclamações. Damon revelou, numa nova provocação, que o feitiço desconhecido que havia salvado a vida de Hagen tinha sido sua obra.

Afastando-se da borda do lago, viram que o túnel continuava, idêntico, para cima. O rastilho de fogo, como feito por alquimia ou magia, saía de dentro da água e continua iluminando, sempre à parede da direita. Discutiram todos sobre seriedade e responsabilidade, e que não poderia haver brigas entre eles enquanto estivessem nessa situação, um tão dependente da ajuda do próximo. Relutantemente, uma trégua foi feita.

Novamente andaram pelo que pareceu serem horas. Subiram um tanto e depois andaram, retos como uma flecha. Depois curvas leves para a esquerda e direita, e o túnel desembocou em uma nova arcada. Acabava numa sala, essa sim feita por construtores. Tinha mais de dez metros de largura por vinte de comprimento, divididos por três fileiras de três colunas espaçadas igualmente.


Cansados de serem pegos de surpresa, examinaram o máximo que podiam sem atravessar a arcada. Damon Cook e Sodoma notaram, ao mesmo tempo, que entre as colunas haviam várias cópias de um dos símbolos místicos do elemento fogo. Após conjurar um feitiço tremeluzente, Sodoma avisou ao grupo que haviam inimigos esperando e que não pisassem nos símbolos.


Hochsend decidiu fazer uma formação de batalha, com Hagen e Mitrin ao seu lado na vanguarda, Yasmin, Alexandros e Luparus no meio e Sodoma e Cook na retaguarda. Siltari voava acima do grupo, no espaço entre suas cabeças e o teto, através de um feitiço de voo que fazia o ar a sua volta cintilar e a fazia exalar um leve odor de alfazemas.

Adentraram a sala lentamente. Ninguém à vista, foram avançando até a primeira fileira de colunas. Hochsend sentia o mal da sala, como se combatesse sua fé em Tyr. O mesmo deus pulsava dentro de Hagen, avisando-o de inimigos. Hochsend acreditava que as colunas era de onde o mal emanava, então foi até uma delas, em guarda, e tentou desajeitadamente "exorcizar" a arquitetura. Sem um ritual de preparação ou orações, apenas bateu em uma das colunas com seu escudo...

... e imediatamente após isso, Demônios Antigos, do mesmo tipo que eles encontraram na Torre de Tsorvo, saíram de dentro da arquitetura, findando sua fusão com a pedra! Eram nove deles, um para cada coluna. Todos feitos da união da rocha e do fogo, portando correntes e armas incandescentes, no formato de espadas curvas, ganchos ou porretes.

Novamente, houve combate. Novamente, o sons de metal faiscando pedra, cordas de arco sendo retesadas e soltas, urros e brados e o sangue respingando. Hochsend iniciou imediatamente um ataque a criatura que estava bem à sua frente, cuidando para que pudesse improvisar uma parede de escudos com Hagen e Mitrin. Teria funcionado muito bem, se ambos não avançassem um para cada lado, em busca do Demônio Antigo mais próximo, quebrando a formação. Yasmin e Sodoma lançaram diferentes feitiços: um jato de água de alta pressão em um dos inimigos e um atordoamento mental em outro. O Demônio que lutava contra Hochsend recuou levemente, trocando o peso do corpo para a perna esquerda, pisando no símbolo gravado no chão da caverna. Com um estrondo, uma COLUNA DE FOGO ergueu-se explosiva, como uma erupção em miniatura. Como que por mágica, TODOS os círculos no chão verteram chamas, e foi apenas por sorte que nenhum dos Myrmidons foi atingido. No entanto, o salão da caverna agora era dividido por pilar de fogo, coluna, pilar de fogo, coluna, pilar de fogo, coluna, pilar de fogo... quatro e três, intercalados, vinte e uma barreiras. As criaturas pareciam imunes ao fogo, renovadas até.

Siltari, voando habilidosamente por entre estes obstáculos, disparava flechas com maestria e olhava de cima a todo o combate. Os nove inimigos avançavam, mas havia uma arcada no final que indicada a saída. Damon fez por bruxaria que uma coluna se derretesse parcialmente, virando lama, e escorresse sobre um dos pilares de fogo. A tática funcionou parcialmente, uma vez que as chamas foram apenas abafadas, e não apagadas. Alexandros correu junto à parede, e evitou que fossem flanqueados por um dos Demônios. Luparus, ao notar o caos que a formação tinha se tornado, jogou uma de suas bombas de fumaça, obscurecendo a visão dos monstros.

Tentavam se virar o melhor que podiam, todos os Myrmidons envolvidos em combate. Os Demônios pareciam lutar com jubilo e prazer pela matança, com um arremedo de sorriso entre as rochas que se assemelhavam a dentes, e buscavam, sem explicação racional, à Hochsend. Um deles girou sua pesada corrente flamejante com tamanha velocidade e ódio, que o jovem não conseguiu se defender... com um estalo alto, seu braço quebrou-se ao meio, o grande escudo anão pendendo ao seu lado, inerte.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

GURPS ÆRTH - Capitulo 5

Após tensos segundos em que os grupos se observam, os Demônios Antigos recuam do parapeito. É óbvio que elas sabem da presença dos Myrmidons, e, fora da visão, se preparam para algo. O grupo prefere não esperar, mesmo tendo perdido completamente o efeito surpresa. Embora alguns queiram voltar à Skyfall e pedir reforços, sabem que a viagem de ida e volta, junto com a preparação de um exército mínimo levaria dias... Assim, acabaram entrando em acordo que o último aviso de que "não havia tempo" de Lorde Octavius deveria ser levado mais à sério.

Novamente, Belly Swan ficou acompanhando a carroça e os cavalos, junto de poucos companheiros, como "Olhos-Frios" Marash-Do e Ronan Brocknock. Já Luparus "Mil Olhos", Hagen, Hochsend von Schultz, Mitrin Drachelager, Alexandros Mograine, Sodoma, Siltari Tauri, Damon Cook e Yasmin prepararam-se e entraram na Torre. Não seria uma missão de salvamento. Desejavam exterminar todos inimigos que encontrassem.

Vasculhando o andar inferior, havia apenas destruição. A criatura encontrada na biblioteca jazia sozinha, um monte de pedras irreconhecíveis. Caminhando para a escada que leva ao segundo andar, Hagen notou que as armaduras anteriormente exibidas estavam todas no chão, espalhadas. Estendeu a mão até uma manopla caída, talvez para verificar se poderia usar a peça... mas no momento em que a pegou, notou duas coisas: a primeira é que a "armadura" era na verdade uma parte oca de uma estátua, feita de um mármore claro e polido de veios verdes e com filigranas de prata, somente semelhante a uma armadura real (embora tivessem partes móveis). A segunda coisa que notou é que todos os pedaços de estatuas começaram a convulsionar em uníssono. Todos se prepararam para a eminência de problemas - parecia que uma força invisível juntava as peças, reconstruindo as estátuas, como se vestindo homens que não estavam lá. Em segundos, remontaram-se. Todos prepararam-se para um possível combate, Mitrin já desferindo alguns golpes contra um peitoral próximo que, mesmo avariado, continuava sendo movido pela força invisível.

As estátuas começaram a andar sozinhas, animadas por forças desconhecidas claramente sobrenaturais. Eram oito; todas portavam algum tipo de arma, feita da mescla de metal e pedra - ora espadas, ora machados; maças e manguais. Todas portavam um escudo de algum tipo, e seus símbolos heráldicos eram diferentes uns dos outros. Havia estrelas e cometas, árvores e martelos e grifos e dragões. Andavam lentamente e ameaçadoramente contra os Myrmidons.

Porém, antes do que parecia ser um combate iminente , enquanto a maioria do grupo rangia os dentes, Hochsend fez como de costume e deu uma chance de rendição aos inimigos, sem se importar se eles eram ou não construtos. "Alto!", ele disse. "Não somos inimigos!".

E, como no mesmo passe de mágica que remontou as estátuas, elas pararam e se viraram para o jovem cavaleiro. Paradas permaneceram. Em um momento de tensão, ele arriscou: "Viemos recuperar a torre de Lorde Octavius. Ajudem-nos ou deixem-nos em paz!".

As estátuas fizeram uma lenta mesura e postaram-se em formação de batalha à frente de Hochsend. Aliviados pelo reforço inesperado, o grupo relaxou e seguiu subindo as escadas. Hochsend ordenou as estátuas em formação ao redor dos Myrmidons. Pelo visto, elas eram algum tipo de proteção do local.

O grupo, agora numeroso, começou a cautelosa subida das escadas. No segundo e terceiro andar, a mesma decoração da destruição, como se um forte vento tivesse varrido os passadiços - armários e gavetas e estantes reviradas, jogadas ao chão, junto de tapetes queimados e cortinas chamuscadas. Tudo que tinha tampa ou coberta ou era algum tipo de invólucro ou vasilha ou recipiente estavam revirados e foram atirados ao chão. Era óbvio que criaturas como as vistas, talvez aquelas mesmo, estiveram vasculhando pelos andares. Exatamente por isso, os Myrmidons subiram lentamente esperando uma armadilha. Mas tudo percorreu bem.

No último andar havia o quarto pessoal de Lorde Octavius de Tsorvo, e a porta para o topo da torre. Estava fechada. Ao passarem para os últimos três degraus antes do aposento, Sodoma, Siltari, Yasmin e Damon Cook - os manipuladores da magia - sentiram uma certa vertigem: como se tivessem ultrapassado alguma barreira invisível e que uma força desconhecida os afetasse, dobrasse e torcesse a realidade. Pelos seus olhares era óbvio que algo estava errado com o Æter do local. Além dos comentários tecidos por eles, os guardiões de mármore começarem a convulsionar levemente e cambalear ao passarem a mesma fronteira imaginária. De soldados altivos, pareciam bêbados armados. Damon Cook notou que a torre era anteriormente um território fértil misticamente - de mana alto - por toda sua extensão. Agora, não mais. Algo estava errado com o mana local, mas ninguém sabia dizer o que e porquê.

Ainda assim, os Myrmidons continuaram. Hochsend reposicionou os guardiões o melhor que pode, e novamente prepararam-se para o combate. Era óbvio que as criaturas estavam além da porta que dava ao topo descoberto da torre. Em formação, abriram a porta.

O topo da torre parte quarto principal, parte varanda; uma sacada aberta, onde Luparus havia visto o Lorde Octavius trabalhando numa mesa repleta de artefatos que ele não sabia o uso. A mesa estava lá, assim como os artefatos, intocados. Avançando lentamente, a vanguarda do grupo passou das portas abertas.

Instantaneamente, algo forçou as portas para dentro, tentando isolar o grupo! Uma das portas se fechou com um estrondo, quando Mograine agachou e rolou para esquivar dela. A outra porta foi interrompida pelo resistente ombro de Hagen. Ao mesmo tempo, os seres de rocha e fogo que tinham sido vistos saíram das paredes paralelas à porta dupla - de DENTRO delas, como se deixassem um lago turvo - irrompendo em chamas, brasas escaldantes e calor, uma explosão em forma humanoide, portando correntes, cimitarras e clavas incandescentes! Eram quatro: dois de cada parede lateral e dois levantando diretamente do solo à frente. Estavam escondidos mesclados às rochas!

Mais uma vez, o combate aconteceu, de maneira rápida e abrupta. Na frente, Hagen e Mitrin avançaram golpeando, de modo liberar a passagem e sair da frente da porta. Alexandros, rolando e levantando-se num só movimento, cruzou golpes com uma outra criatura. Hochsend ia defendendo-se como podia, tentando sem muito sucesso formar uma parede - após a linha de frente improvisada se quebrar, apenas sua incrível habilidade com o grande escudo anão o manteve bloqueando golpes direcionados aos companheiros em ambos os lados. Protegidos pelos guardiões, que formaram um certo perímetro, os outros revezavam ataques com armas de longa distância com magia e feitiços.

Após breves segundos, os seres de rocha e fogo não conseguiram segurar o ímpeto dos Myrmidons. Logo, a frente, um deles ficava imóvel, por causa de um feitiço de controle da mente saído da vontade de Sodoma, a luz saída dos olhos da cabeça encolhida na ponta de seu cajado parecendo confundir o Demônio Antigo. À esquerda, uma chuva de golpes de Hagen e Mitrin transformou em pedaços o inimigo. Á direita, Alexandros soprou em uma das suas lâminas e com o mesmo brilho azul antinatural de seus olhos, ela se tornou gélida, coberta de condensação, gelo e exalando uma névoa cortante. Enquanto o demônio era atingido pelas flechas de Siltari e alguns outros feitiços de Yasmin, ele cravou sua espada onde ficariam as costelas em uma pessoa normal e torceu. Com um grito, a criatura dissolveu-se em escombros.

A terceira criatura teve um fim ainda mais estranho. Damon Cook pareceu encarar o vazio por um momento, como se ouvisse vozes ou contemplasse uma piada própria. Depois, encarou uma das criaturas que golpeava de maneira inclemente o escudo de Hochsend. Uma emanação trêmula e ocre vinda do cozinheiro transformou instantaneamente a criatura em um cadáver humano! O fogo cessou de existir, e as rochas deram lugar a carne morta. Era um homem com as vestes manchadas dos guardas. Tinha cheiro de terra molhada e decadência.

Apenas um restava. Todos saíram para varanda no topo da torre e Sodoma, em aparente controle das ações da criatura, começou a conversar com a mesma. Era uma língua estranha, ininteligível, cheia de sons fricativos. De perto, notava-se que embora todos os Demônios Antigos fossem como fogo preso num corpo rochoso, escapando por eventuais frestas, eram definitivamente diferentes, e não construtos idênticos. Esse tinha um olhar de malícia e divertimento enquanto conversava com o necromante.

Quando Sodoma pareceu satisfeito, mandou a criatura fechar os olhos e não se mover. Depois, apenas meneou para que os guerreiros a destruíssem. Sem reação de defesa, isso foi feito à perfeição.

Sem mais inimigos na torre, os Myrmidons passaram a vasculhar os ambientes. A sacada era um local de observação de corpos celestes utilizado por Lorde Octavius. Era adjacente à seu quarto e tinha uma grande mesa de bronze e latão com artefatos. Melhor examinados pelos estudiosos, os artefatos eram próprios para mensurar as estrelas e seus movimentos: esferas de vidro e lentes de cristal, astrolábios, quadrantes, réguas e esquadros, ampulhetas... a mesa estava também munida de pena, tinta e pergaminhos, preenchidos parcialmente com garranchos que pareciam listar constelações, datas, marés e mudanças climáticas.

No chão de pedra eram visíveis sulcos criados por espaços deliberados dos paralelepípedos. Esses sulcos haviam sido pintados e preenchidos com uma tinta azul brilhante de cheiro acre, formando um símbolo geométrico desconhecido, uma espécie de círculo com partes de um triangulo ou pontas e linhas que se cruzavam. A mesa estava no centro deste símbolo. Ao olhar embaixo dela, notaram que a sua parte de baixo era um espelho. Sodoma, que ao examinar o livro Receitas de Rosenbaum havia se imbuído se um feitiço de memória, afirmou que as bordas desse espelho eram exatamente as mesmas representadas em um desenho de um dos espelhos do livro. Uma cópia fidedigna.

Com muito cuidado, os Myrmidons foram levantando a pesada mesa, de modo a inverter os lados e deixar o espelho para cima. Notaram que os pés da mesa, em latão, eram presos ao chão de pedra e apenas o tampo se movimentava. Ao colocarem o espelho para cima, ele imediatamente refletiu as estrelas do céu - era uma imagem bonita, o espelho impecavelmente limpo, refletindo os corpos celestes em contraste com o negrume do firmamento. E, depois de um breve momento, a imagem começou a tremular, como o reflexo em um lago soprado pelo vento. E sumiu. E, assim de repente, não havia mais um espelho refletindo o céu. Havia uma passagem, e ela levava ao que se assemelhava com um poço de pedra, descendo de maneira impossível para muito além das costas do espelho e do chão da sacada. Preocupados, sem saber o que havia do outro lado, os Myrmidons levantaram o portal e o colocaram na vertical. O poço tornou-se um corredor. Hochsend mandou que os guardiões o cercassem, o que eles fizeram, ainda que aos trancos. Pegaram uma das cortinas do quarto, de veludo rubro e pesado, e cobriram a entrada.

Enquanto alguns vigiavam a nova porta que se abrira, outros vasculhavam os aposentos do falecido Lorde. Um ambiente com as amenidades de um nobre rico, sem ser suntuoso ao extremo. Tudo era de boa qualidade: havia um lavabo, com louças de porcelana decorada com flores vermelhas. Um armário com muitas roupas; Octavius tinha uma predileção por tecidos pesados. Uma grande cama de penas, coberta com peles confortáveis. Damon Cook, acostumado ao trabalho doméstico, notou que um dos tapetes estava estranhamente posicionado ao pé da cama, por onde o Lorde dificilmente caminharia. Levantou-o e achou um pequeno alçapão. Forçando a fechadura, foi revelado um cofre contendo um baú. Tinha um braço de comprimento, por pouco mais de meio braço de altura e largura. Era de carvalho reforçado com ferro negro, e tinha uma boa fechadura.

Ainda assim, a fechadura foi aberta, e todos viram seu conteúdo. Havia os documentos pessoais de Lorde Octavius: seu título de nobreza, as escrituras de suas terras e da torre, junto com alguns mapas das propriedades ao redor, de Tsorvo e uma listagem de arrendatários e moinhos e pontos de interesse. Havia também uma lista dos mantimentos da torre, acompanhada de uma lista de suplementos à comprar. Das dívidas e recebimentos e uma contagem de saldo. Havia também um testamento. Chamou a atenção dos Myrmidons uma particularidade do documento: Lorde Octavius deixava todos os espelhos da torre, sem exceção, à Lorde Qyle de Brynndol. Com a obviedade de um espelho transformando-se num portal, tomaram nota desse fato.

Junto dos documentos, estavam dez pequenos frascos de vidro reforçado com metal que cabiam na palma da mão. Eram cheios de um líquido transparente como água, porém muito mais viscoso e com um cheiro alcalino. Amarrado delicadamente com uma linha fina à seu gargalo e rolha, cada garrafa era acompanhada por uma pequeno envelope de gaze. Dentro, cada um tinha uma pílula da cor do pus, que cheirava a limão.



Também haviam dez pedras de jaspe, vermelhas com veios negros e verdes, esculpidas e do tamanho de ovos. Eram quentes ao toque, da temperatura da pele humana.
Ninguém imaginava o que seriam esses dois itens, ou sua serventia.

A última coisa que o baú continha era um saco de veludo e couro negro que continha F$10 mil, em duzentas moedas de cinquenta Fênix de prata.

Tinham certeza que eram os únicos artefatos dignos de nota. Haviam encontrado tudo. Passaram então a ponderar suas opções. Podiam ir até o outro lado da passagem, e ver o que lá havia. Talvez fosse a fonte de todo o mal que se assomou por Tsorvo. Afinal, não havia tempo de voltar à Skyfall e pedir reforços ou consultar o Lorde Carmell...

... ou será que havia?

Damon Cook disse que poderia fazer a viagem instantaneamente, com um feitiço poderoso. Teria que ir sozinho. Pegou um dos frascos de vidro e uma das pedras de jaspe e disse que voltaria logo. Novamente, pareceu olhar para o vazio. Com um estrondo e um alto barulho de sucção, o "cozinheiro" sumiu numa nuvem de fumaça púrpura.

Todos se entreolharam e resolveram descansar.
Tinham de aguardar.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

GURPS ÆRTH - Capitulo 4

Finalmente seguindo para a cidade, o grupo continua na noite fria.

Hagen seguia na vanguarda, e Siltari como batedora algumas dezenas de metros à frente. Em meio à grande confusão de fugitivos na estrada, a ælfa encontrou o cadáver de um dos prisioneiros recém-libertos, um dos goblins capturados. Enquanto o resto dos Myrmidons passava, ela perdeu algum tempo o enterrando, triste em ver tal desfecho. Quem teria o matado? Ela não sabia, mas a criaturinha estava claramente muito ferida e com a garganta cortada. Talvez tenha sido linchado pela plebe raivosa? Triste, ela fez da melhor maneira que pôde uma pilha de pedras sobre o corpo, um túmulo artesanal à beira da estrada.

Isso pareceu ser mais um mal presságio para Belly Swan. Continuou conduzindo a carroça sem deixar de reclamar e pedindo para que abandonassem a viagem. Ainda assim, persistiram. Logo, os fugitivos tornam-se raros. Depois, findaram. Apenas eles percorreram os últimos quilômetros em direção a vila de Tsorvo. Da estrada descendente, a cidade parecia ficar em um pequeno e largo vale abaixo, como se repousasse no fundo de um prato de sopa e o grupo estivesse descendo de sua borda. Mesmo da distância deste último trecho de viagem, já era possível notar o horror: Tsorvo em cinzas e silêncio, longas espirais de fumaça negra sobre a vila.

Todos juntos, entraram com cautela pelo portão principal. Os guardas estavam mortos. Por onde passaram, cadáveres e casas queimadas. Alguns poucos focos de incêndio permanecem, mas parecia que o pior já passou, ou que eles chegaram tarde demais. Hagen estudou alguns cadáveres. Eles tinham marcas de contusão e queimaduras. Definitivamente morreram em combate. Pareceu que foram mortos com golpes de tochas, ou talvez uma acha em chamas... uma maça incandescente?

Decidem prosseguir imediatamente a torre de Lorde Octavius. Hagen e Yasmin preferiram uma abordagem mais direta, e cortaram pelo meio da cidade, à plena vista. Yasmin é uma ælfa aquática, um tipo raro de ælfo adaptado para sobreviver debaixo d'água, se instalando no leito de rios e oceanos, em vilarejos primitivos. Embora a temperatura da água de Norlland seja mais fria do que ela normalmente prefere, viu como uma boa oportunidade pessoal em servir à Skyfall.

Sodoma, Siltari e o resto dos Myrmidons preferiram levar a carroça por um caminho mais escondido, passando pela periferia e usando a cobertura das ruínas noturnas. Pelos arredores, a visão era a mesma: pelo visto, o ataque chegou em todos os cantos da cidade na noite anterior.

Hagen e Yasmin chegaram, então, ao pátio de entrada da torre. Lá eram presentes os mesmos sinais de ataques e mais corpos. Em frente a escadaria de entrada, no entanto, um homem estava amarrado ao poço de água doce. Estava terrivelmente espancado, porém vivo. Hagen pediu para que Yasmin apressasse os outros. Assim, ela saiu em disparada buscando a carroça.

Era um homem de meia idade, moreno, de sobrancelhas juntas e uma barba de poucos dias. Seu rosto estava desfigurado por um grave espancamento. Acordou de seu desmaio assim que pareceu ouvir a armadura de Hagen se aproximando. Enquanto o servo de Tyr desamarrava seus braços do tronco acima, ele começou a falar, debilmente:

"Não há tempo... Você deve achar o livro de Rosenbaum... na seção de culinária... Não se esqueça... Excelsior. Não há tempo e há mais do que um espelho... eu escondi um, mas não consegui mais... Você precisa avisar..."

Gastou seu fôlego final no estranho aviso. Havia morrido antes mesmo de Hagen o desamarrar por completo. Assim que a vida deixou seu corpo, seu rosto se torceu e mudou, como a água escoando de uma bacia furada. Suas feições de transformaram, e só então Hagen o reconheceu: o homem era o Lorde Octavius de Tsorvo, agora morto.

Enquanto isso, Yasmin encontrou o grupo iniciando a subida à torre, e pediu para que se apressassem. Quando chegaram lá, encontraram o cavaleiro velando o corpo do nobre. Hagen contou o que havia acontecido.

Belly Swan decidiu ficar do lado de fora, cuidando dos cavalos que andavam inquietos. Outros a acompanharam, montando guarda à torre e investigando os arredores. Já Siltari, Sodoma, Damon, Yasmin e Hagen decidiram invadir e investigar a torre.

Dentro do edifício, mais destruição. Móveis queimados e arruinados, estátuas caídas, as tapeçarias parcialmente arrancadas de seus suportes: tudo revirado. O local parecia o cenário de um grande combate já encerrado - marcas de sangue em alguns lugares e o salão principal parcialmente passado à tocha. Os cinco foram diretamente para a biblioteca, como lembravam-se de sua última visita. Ao se aproximarem, ouviram um estrondo vindo de lá dentro, algo pesado caindo. Hagen correu e pôs a porta abaixo com um chute bem colocado, quase arrancando-a de seus gonzos com seu peso.

A biblioteca estava como o resto da torre, uma bagunça. Estantes viradas, livros espalhados, muitos deles parcialmente queimados, outros tantos ainda ardendo. Em frente a entrada, no meio do aposento, o causador de um tudo isso. Um ser feito de sombras, pedra, carvão e fogo, revirando livros!





Seguiu-se um breve e terrível combate. Ao vê-los, a criatura sacou de uma corrente com espinhos; ferro vermelho de um calor não natural. Hagen, orando por Tyr, investiu golpeando com sua espada. Siltari atirava flechas na entidade, a começar pelos olhos. Sodoma e Yasmin prepararam seus feitiços enquanto Damon Cook decidiu se esconder!

Com as flechas de Siltari, apesar de sempre bem colocadas, e com o primeiro feitiço de Sodoma - um raio de luz solar ardente - parecendo surtir pouco efeito, a criatura de chamas e cinzas desferiu alguns golpes contra Hagen, que conseguiu se defender. Quando batia, era como acertar concreto. Até as mãos de Yasmin brilharem num tom cobalto, e seu feitiço de água, um jato de alta velocidade e pressão, atingir o ser. Chiando em meio ao vapor, ele recuou de dor!

Aproveitando-se do momento, Sodoma usou um outro feitiço, dessa vez um de confusão mental na criatura, e ela pareceu atordoar-se. Hagen então fez chover golpes sobre a criatura, fazendo lascas de carvão e fogo espalharem-se pela biblioteca. Daí em diante, foi uma dança ensaiada: Siltari cravou flechas em ambos os olhos do monstro, e depois nos buracos criados pela espada bastarda de Hagen. Sodoma concentrava em manter o feitiço funcionando, enquanto dava espaço para que Yasmin conjurasse mais jatos de água. Em mais alguns segundos e o que restava da criatura eram cinzas e pedras encharcadas, lentamente desmontando-se da configuração humanóide.

Na ruína que a biblioteca se tornara - campo de batalha, revirada por um ser flamejante, jatos de água sendo disparados... - os Myrmidons começaram a busca pela seção de culinária, seguindo o último desejo de Lorde Octavius. Milagrosamente, Sodoma logo a encontrou, e entre os livros Qualquer Um Pode Cozinhar, de August Von Gusteau e Gastronomia Goblinóide, de Jirizz Pepperbasher, estava um nome familiar: Receitas de Rosenbaum. Sodoma olhou-o com atenção, enquanto avisava aos outros. Era um dos livros mais banais e comuns que ele já havia visto - uma capa azul de couro com o título impresso em letras negras e simples. Era um livro pequeno, com cerca de cem páginas. Todas elas em branco.

A ilusão de Lorde Octavius nem pareceu um desafio. Ao falar "excelsior" para o livro, Sodoma viu as palavras se materializarem do nada, revelando parágrafos, capítulos e ilustrações. Dando espaço para todos os Myrmidons examinarem o livro, eles perceberam que o livro era o tratado inicial de Nikko Rosembaum, auto-intitulado matador de demônios, sobre seres que vieram "dos espaços entre os espaços". Descrevia parcialmente criaturas do que Rosembaum chamava de "planos infernais", seus métodos e fraquezas - uma delas, nomeada de "Demônio Antigo", era exatamente igual a criatura que jazia morta na biblioteca. Pelo visto, o autor tinha certo conhecimento, uma vez que ele descrevia o frio e a água como anátema aos demônios antigos, e isso os Myrmidons suspeitavam ser verdade, principalmente depois de testemunharem a eficácia da magia de Yasmin. O livro também continha a "história dos espelhos", onde descrevia algum tipo de portal dimensional.

Decidiram, porém, que ali não era lugar para ler o livro de forma mais extensa. Preferiram sair, falar com os outros, e quem sabe, ir embora para Skyfall. Lorde Octavius estava morto, sua vila destruída, e até mesmo sua torre invadida. Talvez fosse melhor voltarem acompanhados do exército de Lorde Carmell...

Saíram da torre e todos reuniram-se ao redor da carroça, Contaram brevemente sobre o ocorrido, e sobre o que fazer. Parte dos Myrmidons, liderados por Belly, queria deixar Tsorvo. Outra parte queria ficar e examinar mais; Hagen insistia que uma das coisas que Lorde Octavius disse antes de morrer era que não havia tempo. Tempo para quê? Decerto, não para fugir e voltar com reforços.

Enquanto discutiam, viram um movimento no topo da torre. Uma luz se aproximava, como alguém portando uma tocha. Em silêncio, viram quando um outro Demônio Antigo debruçou-se sobre a murada, três andares acima, e olhou diretamente ao grupo. Ele era todo rocha e chama. Ficaram se encarando em silêncio.

Logo, outra criatura apareceu para observar o grupo. E outra. E mais outra.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

GURPS ÆRTH - Capitulo 3

Com Hochsend se levantando, e com a chegada fortuita de três novos membros, o combate rapidamente se resolve.

Dois eles eram anões: Ronan Brocknock, pertencente aos Myrmidons, vinha acompanhado de Mitrin, um famoso heroi, conhecido e admirado. Saltaram de seus transporte e começaram a cortar goblins com seus machados como se fossem árvores velhas. Eram seguidos por Alexandros Mograine, um caçador de demônios, cuja luz azul fantasmagórica que emana eternamente de seus olhos, brilhava nos gumes das suas duas espadas curvas.

Concomitantemente, Damon Cook olhava para o vazio enquanto se concentrava, e fez chamas brotarem de um pedaço do campo, com foco no ponto que todos estavam sendo sugados... Infelizmente, isso fez com que Mitrin se aterrorizasse, temeroso por ser assado dentro de sua armadura de placas, e teve que ser arrastado por Hochsend, ainda atordoado, para fora da estrada. Enquanto isso, o resto aproveitou a bagunça para matar mais alguns goblins. Os com maior calma e sangue frio notaram que o fogo parecia queimar somente os inimigos.

Siltari Taure passava voando e atirando do alto: suas flechas, alfinetes que prendiam os goblins como insetos num quadro. Hochsend voltava e abria caminho no pequeno trecho de estrada transformado em matadouro. Com o desabrochar das chamas, os gritos de agonia dos vencidos e os brados de batalha dos vencedores foram cessando juntos. O resto da tribo goblin foi então esmagada por ataques em todos os lados, golpes de espadas, machados, lanças e flechas, enquanto eram sugados por uma força mágica e misteriosa, para um único ponto, em chamas, incandescente.

Em pouco tempo restavam apenas cadáveres.

Os poucos tribais que tentaram cercar Siltari, mais distantes, iniciaram uma fuga apressada. Logo foram interrompidos pela elfa, Ronan e Sodoma, que usaram um misto de flechas, machados arremessados e feitiços atordoantes. De quase meia dúzia, apenas dois se renderam e param de fugir. Apenas dois sobreviveram e foram capturados.

Amarrados, foram colocados na carroça. Os Myrmidons não se deram ao trabalho de tirar os corpos da estrada do rei; Luparus examinou o campo de batalha improvisado em busca de algum item de valor, mas encontrou apenas bugigangas de osso, farrapos de couro e armas de pedra e madeira. Tudo arruinado pelo incêndio mágico.

Então, sem mais demoras, decidiram seguir viagem e chegaram na taverna afastada de Tsorvo, a aproximadamente 6 léguas (60km) de distância de Skyfall.





Chamada de Pena e Tinta, a taverna fica a poucos quilômetros do portão principal de Tsorvo. Uma construção grande de pedra, troncos e palha, conhecida pelo fogo amigável queimando na lareira e um bom mingau de aveia, é afastada dos barulhos do centro - o que a faz ser o lugar de escolha dos que querem evitar ser vistos, daqueles que simplesmente buscam mais sossego, ou dos comerciantes que esperam para entrar e sair da vila.

Esta noite, porém, não havia nenhum desses tipos: mais de uma centena de pessoas se aglomeravam no grande pátio onde anteriormente os carroceiros conversavam; agora, um local de desespero. Era óbvio que estes eram os sobreviventes de Tsorvo, fugindo da cidade de algum mal desconhecido. Muitos feridos. Muitas mulheres, idosos e crianças. Poucos homens.

Belly Swan estacionou a carroça o melhor que pode, acalmando os cavalos no meio da multidão. Os outros começaram a perguntar ao redor o que houve, e todos analisaram a situação. Os sobreviventes diziam sobre um "ataque à vila", que veio "do nada" na noite anterior. Os inimigos eram "fogo, fumaça e sombras". Durou boa parte da noite e da manhã, e os que se esconderam preferiram partir ao enfrentar mais uma noite de horror.

Sodoma, usando um feitiço de línguas, conversou com os dois goblins presos sobre essa situação, e eles disseram que também foram atacados em sua terra, como esse povo. Que há quase uma semana, vinham roubando nas estradas para ter o que comer, à caminho de uma nova região mais próspera e pacífica. O necromante então os liberta, mas eles comunicam que preferem acompanhar os Myrmidons. Sodoma conta para os presentes e a maioria nega, sentindo-se insegura com inimigos os acompanhando. Os simplórios tribais então partem em direção à Tsorvo. Ambos se armaram de maneira temporária; enquanto um pegava um pedaço pesado de madeira que seria usado como lenha, outro tomou à força uma muleta de um idoso coxo. Partiram à sua sorte.

Alguns moradores reconhecem Mitrin e pedem ajuda; seus grandes feitos de coragem e valor conhecidos pela maioria. Hochsend se juntou à ele, e, ordenando-os em uma triagem, passou a atender os feridos num posto médico improvisado, entre lonas, tendas, barris e fogueiras espalhadas. Entre os feridos confortados, uma mulher chamada Neuzah pediu para Hochsend procurasse seu filho perdido, Thepes. O cavaleiro assegurou que sim, da melhor maneira que pode.

O grupo então dividiu-se entre tomar conta da carroça e dos seus pertences, e adentrar à Pena e Tinta.

Os que entraram, Luparus, Sodoma, Siltari e Mograine, encontraram uma baderna ainda maior do que do lado de fora. O que parecia ser um conselho formado pelos sobreviventes discutia sobre tudo. Alguns diziam para continuar fugindo, que estavam muito próximos de Tsorvo para estarem seguros. Outros, que deveriam esperar ajuda. Um homem sem uma orelha disse que deveriam voltar e lutar, sendo prontamente vaiado. Uma senhora de cabelos amarrados dizia que deveriam seguir à Skyfall, e implorar ajuda a seu senhor. Era fácil notar que muitos discordavam, nervosos.

Ao notar os tipos estranhos entrando na taverna, o silêncio foi se abatendo. Sodoma e Mograine sentaram-se, mordiscando pedaços de comida como se desinteressados pela algazarra, numa falsa serenidade. Siltari se anunciou como um dos Myrmidons de Skyfall, e pediu explicações. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, alguns contando suas histórias, outros, suas perdas. Parte dos presentes se tornou agressiva, dizendo que os cavaleiros de Lorde Carmell estavam atrasados, e pouco a pouco, essa animosidade espalhou-se pelo salão principal, consumindo os sobreviventes como fogo consome palha seca. "Ajudem-nos", era o que alguns falavam, enquanto outros diziam que era "culpa dos nobres", que "não cuidavam de seu povo". Que "Lorde Octavius tinha culpa" do acontecido. Que certamente "Lorde Carmell também, ele devia saber de tudo"... logo estavam exigindo respostas dos Myrmidons!

Sodoma e Alexandros Mograine agiram quase em uníssono. Enquanto o caçador de demônios sacava suas espadas com um olhar ameaçador de luzes azuis, Sodoma fez a cabeça encolhida na ponta de seu cajado relampejar, luzes saindo de todos os buracos, enquanto gritava por "SILÊNCIO!". Foram prontamente obedecidos pelas dezenas de sobreviventes, que, cansados ou covardes, indubitavelmente estavam assustados demais para lutar ou resistir.

Um dos anciões de Tsorvo, talvez o líder desse conselho montado às pressas, deu alguns passos à frente. Tinha a pele curtida do sol e um olhar urgente. Pediu desculpas pelo nervosismo de todos e explicou pouco mais a situação, embora sem grandes novidades. Ele disse que havia ocorrido um ataque, surgido do nada e sem provocação, como se por magia, no meio da madrugada. Originava-se da torre de Lorde Octavius. A vila fora queimada, e quem tentou defender sua casa foi assassinado, combatendo chamas, sombras e brumas. Sem saber o que fazer, fugiram - o melhor a fazer parece ser abandonar Tsorvo para sempre, seja pra Skyfall ou para outras regiões.

Os Myrmidons opinam que o melhor talvez seja seguir viagem à Skyfall, enquanto eles pretendem examinar melhor a vila. Não é uma viagem longa... mesmo os feridos tem uma boa chance de conseguir ajuda por lá. Com isso, desejam boa sorte à todos e partem.



A PROVAÇÃO DE LUPARUS



Enquanto conversavam, Luparus resolveu agir. Fixou seu olhar em um dos homens que insultara os Myrmidons, e, aproveitando-se de um descuido do mesmo, furtou a bolsa de moedas do baderneiro. Amarrou-a ao cinto, e deixou a Pena e Tinta, silencioso como uma sombra. Tinha em mente mais um pequeno acerto de contas. Furtivo, achou simples ir à estrada sem que seus companheiros, distraídos no meio de dezenas de sobreviventes queixosos, o vissem. Logo acho o que procurava - o rastro dos goblins que haviam partido. Curiosamente, eles haviam ido em direção à Tsorvo, e não o contrário. Ele esperou até que as criaturas, que conversam numa língua desconhecida, estivessem num pedaço de estrada deserta. Armado de seu sabre e punhal, saltou das sombras e cravou a arma nas costas de um deles! 

A criatura, pega de surpresa, gritou de dor. Seu amigo empurra Luparus, não querendo mais combater. Ambos parecem não entender a situação. Luparus aproveita esses momentos de surpresa, e faz mais dois cortes no tórax de um deles! Encorajados pela violência, eles então resolvem se defender. Armados de um pedaço de pau e uma muleta pesada, passam a bater em Luparus com rancor.

O ladrão, julgando mal sua força e a armadura de couro e lona dos tribais, logo se vê em desvantagem. Tem certa facilidade para aparar os golpes das clavas improvisadas, mas suas estocadas não conseguem penetrar o couro grosso e fazem apenas pequenos ferimentos nos inimigos. Estes, furiosos, parecem imaginar que Luparus é uma grande colméia de abelhas e disparam pauladas em todos os lados. Em meio minuto de combate intenso, os três estão ensanguentados e ofegantes, os goblins com cortes e lacerações, e Luparus com escoriações e ferimentos nos braços e em um dos joelhos. 

Imaginando-se em desigualdade, Luparus recua para o mato fechado. Correndo, é seguido apenas por alguns passos pelos tribais, que festejam a vitória. Ele, novamente, aproveita o momento para esconder-se entre as árvores. Fica observando enquanto os goblins fazem uma busca rápida por ele, e sem sucesso, seguem seu caminho em direção à Tsorvo. Luparus, então, arremessa uma adaga nas costas do mais próximo, novamente falhando em causar ferimentos sérios. Os goblins o olham com assassínio nos olhos, toda noção de juntar-se aos Myrmidons esfaçelada, e novamente o atacam!

Novamente, o combate é brutal. Luparus, habilidoso com seu sabre, distribui cortes e perfurações aos inimigos. Embora certeiros, esses golpes falham em causar grandes danos. Os goblins, babando de fúria como cães raivosos, passam a agressivamente dar pauladas e mais pauladas em Luparus, acertando em todos os lugares de seu corpo, fazendo chover madeira. O ladrão, como que guiado por vozes celestiais, finalmente resolveu atacar as partes sem armadura de seus inimigos. Em pouco tempo, havia cortado alguns dedos da mão, furado orelhas e pés. Os três estavam terrivelmente feridos, lutando até a morte de maneira animal, mas Luparus conseguiu, finalmente, derrubar um dos inimigos.

Com isso, o goblin restante, sua mão direita inutilizada, deixou cair a muleta roubada e correu para a floresta, como Luparus antes dele. Enquanto o ladrão cortava a garganta de seu parceiro inconsciente, este escondeu-se e fugiu. O humano, muito ferido, resolveu então voltar à Pena e Tinta.

Lá chegando, encontrou seus amigos que o procuravam, preocupados, apenas sua ausência os impedindo de partir. Ele contou aos Myrmidons que foi assaltado por três homens - fortes roceiros ou lenhadores, não sabia dizer - e embora gravemente ferido, evitou que levassem suas posses. Sodoma, irritado, casualmente estendeu a mão, e alguns de seus ferimentos foram magicamente cicatrizados. Temendo algum tipo de represália, seja da população que parecia agora mais hostil ao grupo, resolveram partir. Afinal, Luparus havia, realmente, tomado uma surra.

Seguiram, finalmente, para os portões de Tsorvo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

GURPS ÆRTH - Capitulo 2

Na noite em que foram avisados de possíveis problemas na vila de Tsorvo, todos os Myrmidons foram às suas preparações de viagem. Ainda nesta noite, dois foram tentar interrogar o goblin preso para mais informações.

O primeiro era Marash-Do, conhecido pelos outros como "Olhos-Frios": um macho do Povo-Gato, já com uma certa idade, e quase sempre portando suas cimitarras gêmeas, seu manto pesado e seu olhar embotado. Sabe-se pouco mais sobre Olhos-Frios do que se encontra à vista: ágil, forte, guerreiro experiente, velho de alma morta. Vinha junto de Sodoma, o necromante. Sempre acompanhado de seu cachorro morto-vivo, um animal de estimação amaldiçoado, o feiticeiro da morte não é visto com bons olhos em Skyfall. Muitos perguntam-se porque um praticante da magia negra seria parte dos Myrmidons, e qual seria o tipo de chantagem ou dívida de favor que ele possui sobre Lord Carmell, a fim desse aceitar sua "presença desgraçada" em seu "nobre grupo de elite".

Juntos, caminharam até as masmorras. Lá estava o goblin preso, ainda a praguejar quando perguntado de alguma coisa. Parecia miserável preso, embora sem sinais graves de violência física. Sodoma, num passe de mágica, a garganta iluminada por dentro, falou na língua bárbara da criatura. Estabeleceu um diálogo que Olhos-Frios não entendia. Após algumas frases trocadas, Sodoma contou que a criatura afirmava não saber de nada sobre o ataque, e que os motivos eram banais: "vocês tem muito, nós temos pouco. Fomos pegar um pouco do seu muito", ele havia dito ao mago de vestes negras.

Olhos-Frios preferiu se certificar e entrou na cela do prisioneiro, buscando a intimidação. Ficou entre o goblin e a porta, abriu o manto mostrando as armas, dizendo que era bom que fossem ditas verdades ou a criatura pagaria em sangue... Infelizmente, a visão de suas armas não serviu como intimidação para o goblin, mas sim como oportunidade. Prontamente, ele pulou em direção à Olhos-Frios, segurando tanto seu cinto como o cabo de sua espada! Olhos-Frios golpeou com as garras em seu ombro, vertendo sangue, mas o inimigo saiu do agarrão portando uma das cimitarras do felino-homem. Sodoma, ao ver a cena, fechou e trancou a porta da cela, dizendo algo ao prisioneiro que Marash-Do não entendeu. Era uma proposta, vinda diretamente de seu asco pela fraqueza: "se você o matar, estará livre."

O goblin não precisava de incentivo melhor, e um combate iniciou-se. Um curto combate, na verdade, uma vez que Marash-Do sacou rapidamente sua espada restante, aparando com dificuldade a primeira estocada do inimigo. Mais dois golpes foram trocados, o som das espadas em choque reverberando nas rochas úmidas do calabouço, até que com um talho certeiro, o representante do Povo-Gato separou a mão da espada do goblin do resto de seu braço. Este, vencido, caiu ao chão em gritos e sangue. Sodoma, com o final do combate, destrancou novamente a cela, e forçando sua vontade mágica, os olhos da cabeça encolhida encrustada em seu bastão longo brilhando, sarou parte dos ferimentos do prisioneiro. Ele havia perdido a mão, é verdade, mas seu pulso estava completamente curado do corte.

Novamente perguntaram sobre o ataque. Sodoma disse que as respostas foram as mesmas, num tom mais desesperado: seu prisioneiro estava fraco, preso, malnutrido - e agora - mutilado. Olhos-Frios o prendeu no fundo de sua cela, numa armação de madeira em cruz, com os punhos e pernas acorrentados e separados. Ao sair, deu um lento e desdenhoso tapa em sua cara, quase um empurrão. 

Convencidos da aleatoriedade do assalto na estrada, partiram.

Fora das masmorras, com diferença apenas em ordem e sequencia, os Myrmidons organizavam-se para a viagem. Desta vez, ninguém de fora os acompanharia, nem mesmo os jovens Nord e Jay - quem seria a responsável por dirigir a carroça e cuidar dos animais era a amazona Belly Swan, também parte do grupo. Belíssima, sua aparência talvez fosse por si só razão da sua permanência no grupo, mas ela também tinha habilidade com a besta e no trato de animais, além de cavalgar melhor do que o melhor cavaleiro de Skyfall.

Tudo pronto, e todos os membros foram em comitiva. Sodoma, Olhos-Frios, Luparus, Damon Cook e Belly Swan na carroça, enquanto Hochsend, Hagen e Siltari Taure foram à cavalo. A ælfa Siltari Taure, uma das poucas de sua raça em Skyfall, foi como a batedora do grupo desta vez. Além de elo de ligação com os ælfos de Eldenurim, região próxima à Norrland, Siltari é, de longe, a melhor arqueira do Norte - talvez de todos os Nove Territórios.

A viagem a Tsorvo então começou, com a duração prevista de meio dia de cavalgada. Em direção à problemas, provavelmente. No caminho, poucas conversas; Belly mostrou-se interessada em seus companheiros, e se tornou um pequeno poço de disputas pela sua feminilidade. Olhos-Frios tentou acompanhar Siltari na vanguarda do grupo, mas logo retornou alegando um mal estar, e pareceu cochilar na carroça logo depois.

E, de fato, encontraram problemas antes do final da viagem. Quase que no mesmo local do ataque dos goblins no dia anterior, poucas horas fora de Skyfall, Siltari notou vultos escondidos nos morros que cercam a Estrada do Rei. Ao mesmo tempo, algo se arrepiou na nuca de Belly, e ela também percebeu o perigo... logo avisou a todos, da maneira mais furtiva que pode.

Siltari avistou uma sombra ao longe, apenas uma sugestão de presença, dezenas de metros à frente e acima, entre a folhagem da colina baixa. Era difícil até mesmo de distinguir, mas ela arriscou atirar uma flecha no local. E como onde Siltari Taure enxerga, Siltari Taure acerta, a trajetória de sua seta terminou em um grito abafado ao longe. Inadvertidamente, o inimigo caído, guinchando, tornou-se o sinal de ataque dos que esperavam: como no dia anterior, mais de duas dezenas de goblins tribais armados desceram da colina, buscando atacar a caravana!

No entanto, encontraram os aventureiros um pouco mais preparados. Diferentemente do dia anterior, estavam com o grupo completo e tiveram algum aviso. Hochsend bradou ordens de combate, pedindo que Belly acelerasse à carroça e fugisse do combate - e então partiu com seu cavalo, esperando que alguém o seguisse. Damon Cook concentrou-se por um segundo, seus olhos brilhando como um caleidoscópio, e então fez a ilusão de uma trincheira aparecer, entre a carroça e o grupo de inimigos. Era funda, com estacas sangrentas no fundo, e esqueletos de goblins mortos feito espetos.

Siltari permaneceu à frente do grupo, fazendo inimigos caírem flecha após flecha disparada. Luparus pediu que parassem, saltou da carroça com agilidade, sacou uma de suas bombas de fumaça escondidas, e seguiu o veículo à pé, ficando na retaguarda. Sodoma, após reclamar da indecisão de Belly, ora acelerando ora freando a carroça, decidiu também por descer do veículo, sumindo inexplicavelmente, após magicamente tornar-se invisível. Mandou seu cão zumbi atacar os inimigos, enquanto desaparecia. O cão, sem expressão, começou a correr.

As criaturas atacavam com lanças e flechas, mas entre ataques que erravam por pouco ou defesas bem sucedidas, ninguém fora ferido. A maioria dos goblins parou beirando ao que julgaram ser uma trincheira real, e ficaram em formação de combate: rosnavam e xingavam em fila, suas lanças apontadas à frente. Finalmente freando a carroça, Belly retirou furtivamente do braço uma pulseira com um pendente de cavalo e a arremessou ao chão; o pendente transformou-se instantaneamente, com pequena explosão de luz e fumaça, em um grande cavalo de batalha de pelagem negra. Era forte e musculoso, com a crina e rabo como ouro líquido e olhos brancos como a lua cheia. Era Sarossu, sua montaria e companheiro mágico. O cavalo correu em um arco, a fim de encontrar-se de frente a linha de goblins parados, atropelando-os da esquerda para a direita. Olhos-Frios, aparentemente sem medo de morrer, saltou de modo a encontrar o meio da primeira fila de inimigos, aparando golpes de lança com habilidade enquanto pousava. No segundo seguinte fez um giro completo portando suas duas cimitarras, atingindo quatro inimigos, cortando troncos e membros num redemoinho de sangue. Na outra extremidade da linha, Hochsend veio cavalgando, bloqueou projéteis com seu pesado escudo anão e acertou inimigos de cima do cavalo como fossem pregos à ser afundados na madeira mole. Tencionava encontrar Sarossu de frente, esmagando a hoste improvisada como um martelo e bigorna. Parecia funcionar.

Sodoma, caminhando invisível, checou o campo de batalha e viu como seus companheiros estavam: viu Siltari Taure começando a ficar cercada, os goblins correndo em sua direção mais rápido do que ela podia acertar com as flechas, ou atrapalhando sua mira forçando-a se esquivar das armas arremessadas; alguns já assomavam-se em suas costas. Viu Belly parando a carroça, com Luparus às suas costas, protetor. Damon Cook continuava dentro do veículo, também analisando o combate pelas frestas das cortinas e lançando um outro feitiço - o "cozinheiro" olhou de maneira alucinada para um lugar não específico do campo de batalha, e o ar daquele local pareceu vibrar, como ondas de calor que formam as miragens do deserto. Essas vibrações transparentes, porém visíveis, começaram a puxar todos ao redor para si; o que de certa forma ajudou os avanços de Hochsend e Sarossu, enquanto impedia a fuga dos inimigos. Era como se tivesse aberto um ralo na realidade, que era sugada lentamente. Também viu seu cachorro desmorto levando um tribal que corria ao chão, comendo-lhe a barriga da perna. O animal não fazia um som. O goblin gritava em desespero.

Sodoma então preferiu então concentrar-se em um feitiço de ataque, um disparo de luz solar no meio da falange inimiga, já combalida pelos ataques de Sarossu, Hochsend e Olhos-Frios. Mirou displicentemente o meio do grupo e lançou o feitiço, seus dedos invisíveis crepitando. O próprio jato de luz tornou-se visível somente ao deixar sua posse. Num azar tremendo, o disparo mágico passou alto por sobre a cabeça dos goblins, atingiu Hochsend na virilha, na junção de seu corpo com seu cavalo. Mesmo sem empregar toda a força da sua magia atrás do raio solar, o golpe era para matar, e queimou gravemente o corpo do cavaleiro, que - em meio à seu ataque de carga - caiu duramente de seu cavalo, com sua genitália em chamas!

Os goblins continuavam a ser puxados para o ponto de concentração de Damon, empurrados por um flanco por Sarossu, que empinava alto, os pisoteando. Seus cascos pareciam em chamas. Olhos-Frios girou suas espadas mais um par de vezes, saltando para longe da formação goblin, já em total colapso. Alguém acertara seu companheiro, e ele não vira quem ou como. Belly sacou sua besta e atirou em um goblin da formação, sua seta enterrando-se no chão, errando o alvo. Luparus continuava na retaguarda, estudando a todos, preferindo afastar-se do combate, ainda segurando sua bomba de fumaça. Ao longe, Siltari deu um giro gracioso no ar, desmontando e desviando de uma lança arremessada ao mesmo tempo, e pousou levemente no chão. Em momentos estava cercada. Abaixou-se, como se pegasse impulso para saltar, e saiu voando como um pássaro, os inimigos olhando em espanto ela longe do alcance das suas facas. 

Hochsend foi arrastado junto dos tribais por um momento enquanto recuperava os sentidos. Postou-se de joelhos com dificuldade, bradando "TYR! Empreste-me sua força!" Em um piscar de olhos, seus ferimentos vazaram luzes e desvaneceram. Parecia renovado, determinado.

E o combate continua...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

GURPS ÆRTH - Capitulo 1

Norlland tem um novo lorde.

Sir Herry Carmell, após anos de serviço à coroa como cavaleiro, foi apontado como o novo defensor de Skyfall, após o assassinato da antiga Casa Greenley pelas mãos de escravagistas. Enviado pelo Magnus Rex Harald Hyborne IV, teve sucesso em purgar a terra deste mal, assumindo como recompensa o trono da fortaleza, o cargo de 'Mantenedor do Norte' e a responsabilidade em "pacificar, repovoar e prosperar na região".

Com a segurança, meses de avanço vieram. Povos de vilas afastadas migraram para a terra do novo nobre, onde oportunidades de sair da estagnação parecem abundar. Entre os recém-chegados, pessoas importantes, de várias raças e tipos - mas, principalmente, de diferentes e importantes talentos.

Lorde Herry, ao invés de restringir o acesso dos viajantes, passou a usar a mão de obra extra para fazer crescer Skyfall. Os tempos eram duros e o dinheiro curto: mas onde há vontade, há um meio.

Entre essas pessoas notáveis, Carmell escolheu alguns candidatos à dedo, selecionados por observação (e, dizem em rumores, adivinhação mística) para formar o que hoje são chamados dos Myrmidons de Skyfall: um grupo de elite, não apenas de guerreiros e mercenários, mas de operativos de diferentes talentos para "ajudar Norlland e a Coroa".

Após alguns meses, Lord Herry chamou os myrmidons até a sala do trono - fria, feita de pedra, sem grandes adornos - para sua primeira missão: ir até a vila de Tsorvo, a meio dia de cavalgada, para convidar seu lorde regente para festividades vindouras. Carmell sabe que mesmo após meses de poder consolidado, uma reunião face-a-face com os nobres da região tem seu valor; além, claro, de ser um sinal de respeito e reconhecimento a estes mesmos nobres.

O destacamento escolhido para ir a vila de Tsorvo foi formado por:

Hochsend Von Schutz, metade curandeiro, metade guerreiro, que viveu com os anões do reino de Ærieheim, na vila de Volkurjäheim. Seguidor do código de Tyr, é honrado, proficiente com o escudo e abençoado com o poder de curar com as mãos. Além de um ativo valioso no campo de batalha, é um elo de ligação com os normalmente desconfiados anões de Ærieheim.

Hagen, um paladino de Tyr, também seguidor do código, que veio à cidade com outros do Culto dos Filhos de Tyr, para ajudar Lorde Herry Carmell à manter a paz e a ordem em Skyfall. Além de supervisionar a construção de um novo templo à Tyr, Hagen é um guerreiro forte e vigoroso, habilidoso com as armas, e um dos escolhidos por Tyr para realizar milagres em forma de proezas físicas.

Luparus, escolhido por sua inteligência, furtividade, rapidez e pontaria com o sabre - sua arma pessoal. Sempre é visto com seu macaco de estimação ao ombro; dizem que ele tem algum tipo de ligação com a pequena fera, que parece capaz de entender alguns de seus comandos mais complexos.

E Damon Cook, um ajudante cozinheiro, que ninguém imagina fazer parte dos myrmidons, a não ser eles mesmos. Além de fazer um ótimo ensopado de galinha e ser conhecido pela mais rápida e secreta limpeza de carnes de caça, não parece possuir habilidades dignas de nota. É mudo, com grandes olhos que denotam uma certa loucura.

Todos reunidos na sala do trono, Lorde Herry contou-lhes sobre a festa, acompanhado de Sir Wylliam Payne, o conselheiro fiscal de Skyfall, responsável pelas finanças de Norlland; Sir Derron, seu conselheiro e sábio pessoal - dizem à boca pequena que ele tem consideráveis habilidades mágicas; e de Sargos Grimmwulf, capitão da guarda de Skyfall.

Depois que a missão foi dada, começaram os preparativos. Todos pegaram e checaram seus itens pessoais, armas e equipamentos, certificando-se do necessário para qualquer ocasião. Na manhã seguinte, logo após o desejum, partiram numa carroça com dois cavalos atrelados, e dois serviçais do território - Nord e Jay, com 14 e 12 anos, respectivamente - para manejar os cavalos e ajudar com o carregamento dos itens. Hagen pediu especificamente um cavalo selado, o que foi atendido.

Iniciaram a viagem, e ela percorreu sem problemas. Meio dia de cavalgada significou poucas paradas, apenas para comer e aliviar as bexigas. No final da tarde, chegaram a Tsorvo.

Sendo uma vila menor, a chegada dos myrmidons à Tsorvo não passou despercebida. Guardas no portão os deixaram entrar após uma breve apresentação, e eles certamente foram vistos caminhando em direção a torre de Lorde Octavius, regente do local. Lá chegando, foram recepcionados por Sir Konrad, capitão da guarda de Tsorvo. Apresentações novamente feitas, Konrad disse que já os esperava, avisado por Lorde Herry Carmell via um pombo correio. Depois, lhes mostrou a torre e suas acomodações designadas - pernoitariam no forte. Damon Cook notou quase que instantaneamente que a torre era um território fértil misticamente - de mana alto - por toda sua extensão.

Seguiu-se um breve momento de descanso. Hagen ficou em seu quarto, revezando em se lavar, rezar e se preparar para a janta. Damon e Hochsend pediram uma escolta à Konrad, o que lhes foi atendido, para que Hochsend pudesse examinar melhor as defesas (ou a falta delas) da torre de Lorde Octavius. Passearam brevemente por Tsorvo, e puderam perceber que a vila é simples, porem composta de trabalhadores: parte dela se ocupa com o corte de árvores de uma floresta próxima, comercializando madeira, seiva e ervas simples; outra parte se dedica a produção de grãos e a criação de carneiros. Em geral, possivelmente pelo fato de seu lorde ser um mago procurado por aventureiros, a população parecia acostumada com a presença de estranhos; principalmente armados. A taverna próxima à torre, chamada de Três Estrelas, parecia um lugar aconchegante, mesmo que sem luxos. Mas, principalmente, Hochsend não encontrou falhas na defesa do vilarejo: sim, eles poderiam usar mais homens e armas de sítio, mas com o recursos que possuíam, certamente faziam um bom trabalho. Tudo parecia em ordem.

Enquanto isso, Luparus trancou-se no seu quarto, deitou-se na cama, e trocou de corpos com Garã, seu macaco de estimação. Cansado da linga viagem, foi um tanto difícil. Com o poder de entrar no corpo dos animais, saiu com o corpo de Garã para examinar melhor a torre, de maneira escusa. Escalando a muralha até o topo, viu um senhor idoso no último andar, uma sacada aberta, trabalhando numa mesa repleta de artefatos que ele não sabia o uso. Descendo sem ser visto, rodeou a torre memorizando portas e janelas, e descobriu onde era a cozinha, a área dos serviçais, e principalmente, a sala dos guardas. Os guardas notaram a presença de um macaco, animal raro por aquelas bandas, e tentaram o agarrar por diversão - sendo rápido naturalmente, talvez mais ainda no corpo de Garã - Luparus escapou com facilidade e voltou ao quarto, interrompendo sua exploração.

Na hora do jantar, foram avisados que, finalmente, poderiam se encontrar com o nobre. Lorde Octavius de Tsorvo era o idoso que Luparus viu trabalhando no topo da torre - um lorde conhecido por ser bondoso e um mago competente; e sua mera presença fora suficiente para que os ataques de bandidos, comuns no passado, se tornassem em acontecimentos raros. Junto de Lorde Octavius de Tsorvo estava Konrad, e Yaro, que apresentou-se como conselheiro do território.

No jantar, foram discutidas amenidades para inserir o real assunto: o convite de Lorde Herry à Lorde Octavius para as festividades. Octavius se mostrou surpreso por um convite feito pessoalmente, ou ao menos pela guarda de honra dos Carmell (esse pensamento exposto em voz alta corroborou a suspeita velada dos Myrmidons que haviam sido enviados também como uma menor forma de intimidação e demonstração de poder). Disse que iria comparecer as festividades, que aconteceriam em dois meses - e que iria confirmar sua ida diretamente a Lorde Carmell com uma carta em até dois dias. Lorde Octavius pareceu ser uma pessoa tranquila, inteligente e sem nenhum traço de afetação ou orgulho de seu status.
(No meio de uma conversa sem importância, Luparus pediu licença para ir ao banheiro, porém foi ao seu quarto. Lá, novamente possuiu o corpo de Garã, deixando descuidadamente o seu próprio cair ao chão, e escalou mais uma vez a torre até seu último andar. Explorando-o totalmente na ausência de Octavius, notou que a área deveria ser um observatório de estrelas, com algumas ferramentas em bronze que ele não soube dizer a serventia, mas que pareciam ser medidores e aferidores de algum tipo. No chão, notou um simbolo pintado nas rochas, com tinta azul, uma forma geométrica que não lhe dizia nada. Voltou ao quarto, retornou em seu corpo - a queda lhe deixou com uma leve dor na cabeça - e voltou à juntar-se aos demais no jantar.)
Tal observatório já havia sido intuído por Damon, nas suas andanças com Hochsend. Mudo, Damon lançou, com um feitiço, sua voz na mente de Hochsend, pedindo para que ele perguntasse para Octavius sobre esse fato. Mesmo Hochsend esforçando-se para disfarçar o choque de ouvir a voz que imaginava ser do cozinheiro dentro de sua cabeça, por sorte ou talvez por estar escutando, exatamente no mesmo momento, Lorde Octavius disse sobre seu interesse em astronomia e astrologia, e sua predileção por examinar e registrar o movimento das estrelas. Contou-lhes, de maneira amigável, que era seu passatempo favorito e que havia muito a ser aprendido pelo movimento dos astros. Sem saber o que pensar sobre isso, nada foi dito pelos myrmidons.

O jantar logo acabou e Lorde Octavius se despediu. Disse que não os veria de manhã, e desejou-lhes uma boa viagem. Logo, todos estavam dormindo.

Novo dia, e novo desejum. Repetiu-se a preparação do dia anterior, e ainda no começo da manhã, partiram de Tsorvo em direção à Skyfall. Quase meio dia de viagem se passou, sem problemas.

No entanto, a aproximadamente duas horas de Skyfall, foram emboscados pelo que parecia ser uma tribo de Goblins! Criaturas pequenas, de pele verde, olhos e barrigas saltadas, orelhas e dentes pontiagudos, três dedos em cada mão - portavam lanças, arcos curtos, facas e trajavam roupas simples, de couro cru. Desceram a colina lateral, armas em punho e brado saindo das gargantas!

Hagen era o batedor do grupo, cavalgando dezenas de metros à frente da carroça. Não percebeu os goblins escondidos, e voltou o mais rápido que pode ao ouvir o ataque, com sua lança de justa em punho. No caminho, pediu - "Abençoe-me Tyr, e me dê forças nesta batalha!" - o que foi prontamente atendido pela divindade, aparentemente satisfeita com seu campeão.

Luparus olhou o que pareciam ser uma dezena de goblins descendo a colina e saltou da carroça. Pousou com graça e leveza, sacando seu sabre para o combate iminente. Hochsend desceu pelos fundos da carroça, preparando seu escudo enquanto pedia a Nord e Jay que estacionassem à carroça para uma defesa apropriada. Os meninos, aterrorizados, não só não o obedeceram, como ainda aceleraram os cavalos!

Alguns goblins arremessaram lanças; Luparus se esquivou de uma delas, num rápido rolamento. Outra caiu ao seu lado, fincando-se no chão. Damon observou, ainda dentro da carroça, como os goblins se dispunham, e após um breve momento de foco, teletransportou-se, incógnito, para trás do grupo que avançava!

Luparus sacou rapidamente sua faca pequena, e a arremessou na direção da criatura mais próxima. Ferindo sua perna, o goblin entrou num mergulho e veio às cambalhotas até o final da colina, desnorteado. Outros, mais a frente, posicionaram-se de maneira a parar o retorno de Hagen. Mais lanças foram arremessadas, mas ou erraram o seu alvo ou foram desviadas pelo escudo do paladino. Dois goblins, na retaguarda, revezavam-se disparando flechas contra Hochsend - que, embora conseguisse usar seu escudo como cobertura, tinha o avanço lento pela barragem de projéteis.

Hagen alcançou os inimigos, e perfurou mortalmente um deles com uma arremetida com sua lança de justa, como carne no espeto. Os outros goblins, ao verem isso, deram espaço para sua passagem... não antes que ele transformasse mais um deles em um cadáver.

Hochsend avançou até postar-se ao lado de Luparus, que estava lentamente sendo cercado, enquanto travava um intenso combate com outro goblin - seu sabre ora encontrava o facão enferrujado do inimigo, ora sua armadura de couro. O cavaleiro passou então a defender o companheiro das flechas e golpes o melhor que pode, com seu grande, pesado e resistente escudo de ferro anão. Como se estivesse numa falange, Luparus não foi atingido.

Damon, na retaguarda dos goblins, fez um gesto com as mãos, e criou a ilusão de um grande DRAGÃO em rasante pela colina! Negro, com os dentes grandes como gládios, uma dezena de metros de envergadura, rosnando, acompanhava a descida dos inimigos... o que surtiu um efeito não desejado: os outros myrmidons, sem saber que se tratava de uma ilusão do cozinheiro, prepararam-se para um combate mais difícil e rangeram os dentes, enquanto os goblins entravam em desacordo; um deles, ao invés de disparar outra flecha em Hochsend, atirou em direção ao dragão... e, acertando a frágil construção ilusória, a destruiu! Os goblins comemoraram o desaparecimento do dragão com mais um brado de guerra, e renovaram as esperanças para o ataque!

Hagen largou a lança de justa, e, sacando sua espada curta, saltou do cavalo - que continuou correndo desembestado. Imediatamente foi cercado por cinco tribais, que atacaram sem efeito - ele habilmente aparou as investidas com sua espada e escudo. Luparus também defendia-se do goblin armado de facão com facilidade, e o feria com leves estocadas e cortes. Hochsend voltou a ser alvo dos arqueiros, desta vez com menor sucesso: uma flecha cravou-se fundo em seu flanco esquerdo, no ventre. Agarrando-se à consciência, permaneceu acordado enquanto o seu sangue vazava fartamente.

Damon Cook, ao ver que seu dragão não tivera o efeito desejado, partiu para uma abordagem mais prática. Teletransportou-se novamente para a retaguarda dos goblins, aproximando-se da batalha, e apontando aos céus, fez jatos de luz roxa e verde verterem de seu corpo como um chamariz bruxuleante; tais gotas de luz pousando e atingindo somente os inimigos. O resultado foi devastador...

Em uníssono, todos os tribais fizeram caretas de terror absoluto, gritando, paralisados por um medo irracional e místico. Hagen, aproveitando a oportunidade, girou a espada duas vezes em arcos curtos, mandando dois goblins que o cercavam para sua morte. Luparus perfurou a bocarra aberta de susto do inimigo que duelava com ele, perfurando sua bochecha; um segundo golpe veio para cortar a face do tribal, atordoado de dor e pavor. Hochsend usou então sua maça em um deles, mandando-o ao chão, enquanto defendia-se de mais uma flecha e recuperava-se do ferimento. Vendo a fonte das luzes, um dos arqueiros atirou contra Damon; no entanto, com uma encarada do cozinheiro, a flecha fez uma curva no ar, voltando-se contra seu atirador, e enterrando-se em seu ombro! A visão de um homem que podia devolver flechas com o olhar foi o suficiente para seu amigo, que parou os ataques à Hochsend e fugiu de volta para a mata.

Hochsend pode então dar cabo do goblin que Luparus havia desfigurado - ao mesmo tempo um ato de piedade e finalização de mais um combate. Hagen, parecendo ter a força de quatro homens, abriu, com sua espada curta, mais dois dos goblins atordoados. Tentou nocautear um terceiro com a chapa de sua lâmina: ao ouvir os ossos do crânio da criatura estalar, soube que não teve sucesso.

O combate havia acabado.

Ao olhar ao redor, corpos se amontoavam. Luparus gritou para que Nord e Jay, ao horizonte, parassem a carroça. Ao ouvir seus senhores bem e salvo, desaceleraram. Enquanto isso, Damon ajoelhou-se brevemente no chão, dando impulso para sair em voo, rápido como um pássaro! Os outros myrmidons, ao olharem a cena, se deram conta do porque ele estar no grupo: era um mago, não um mero cozinheiro! Hagen e Hochsend ficaram, especialmente, surpresos com a descoberta. Voando até a carroça, Damon pousou e ajudou os meninos a voltarem. O cavalo de Hagen, no entanto, não estava em nenhum lugar a ser visto e foi dado como perdido.

Hochsend andou pelo campo de batalha improvisado, a estrada pintada de ocre com o sangue derramado dos goblins. Com uma prece à Tyr, removeu a seta de seu flanco, e pareceu sangrar luz por um momento... em um segundo seu ferimento havia desaparecido! Depois, sistematicamente terminou por matar a todos que estavam agonizando. Em seu rastro, Luparus procurava por algo de valor nos bolsos dos vencidos: achou apenas itens de uma sociedade simples, como colares de contas, braceletes de couro e coldres feitos à mão, além de armas feitas de pedra, madeira e aço de má qualidade.

Reunindo-se na carroça, descobriram um goblin ainda vivo, curado pelos poderes de Hochsend. Tentaram interrogá-lo, perguntar porque havia atacado, mas ele respondeu em uma língua desconhecida, talvez proferindo ofensas. Amarraram-no com força e o levaram para Skyfall como prisioneiro. No breve caminho de volta, Hagen pareceu nauseabundo; seja pelo cheiro do tribal ou pelo movimento da carroça.

Ao chegar, foram recebidos pelo Capitão Sargos, e pediram para colocar o goblin nas masmorras, para futura interrogação de alguém que o entendesse. Foram rapidamente atendidos, ainda que alguns guardas tenham debochado das suas intenções, duvidando que um "goblin estúpido" soubesse "qualquer coisa de valor".

Ao entrar no castelo, reuniram-se novamente com Sir Darron e Lorde Herry Carmell, a quem contaram os pormenores da viagem. Lorde Herry pareceu satisfeito, e respondeu que sim, "uma demonstração de poder à Octavius não era de todo mal" - mostrava segurança, colocava certas intenções em perspectiva e - porque não? - demonstrava cuidado e respeito. Lorde Herry deixou então que descansassem, sua tarefa cumprida com sucesso. Hagen e Hochsend passaram rapidamente no calabouço, onde certificaram-se que o goblin era tratado sem crueldade. Deram comida à ele, mas não conseguiram estabelecer algum tipo de contato.


***


Após três dias, foram chamados as pressas a noite para falar com Lorde Herry. Ele, preocupado, pedia que preparassem-se para uma nova viagem na alvorada, pois havia enviado pombos correios para Lorde Octavius, que não foram respondidos. Hoje, seus guardas disseram ter visto grandes fogos refletidos nas nuvens na direção de Tsorvo. Ele teme por um ataque, o qual não saberia explicar o motivo. Seria uma vingança da tribo goblin? Ou seria uma nova ameaça? Lorde Octavius, um mago de renome, não conseguiu se defender? Como tudo se encaixa?